Afinal de contas, os chineses controlam o bitcoin?

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É inegável o papel protagonista que a China assumiu não só nas flutuações do mercado, como mais recententemente nas discussões em relação ao desenvolvimento da infraestrutura da tecnologia blockchain.

A demanda chinesa é o principal vetor de crescimento do bitcoin, influenciando diretamente não só a cotação da moeda digital, mas também o mecanismo essencial para o funcionamento do blockchain: a mineração.

Atualmente, fabricantes chineses são responsáveis pela grande maioria das máquinas mineradoras e grupos de mineradores chineses controlam mais de 70% da capacidade de processamento dedicada ao blockchain.

O predomínio chinês na mineração coloca um grau de complexidade adicional em relação aos mecanismos de governança do protocolo e resulta em conflito no que diz respeito à natureza descentralizada do blockchain.

O crescimento exponencial do bitcoin se deve especialmente pela demanda especulativa do mercado chinês, que encontra na moeda digital um instrumento ideal para arbitrar em relação ao yuan e para que os investidores e usuários tenham acesso à liquidez em moeda estrangeira, sem as restrições de controle de capitais impostas pelo governo local.

O que explica a popularidade do bitcoin na China? Diferente da maioria dos usuários ocidentais, os chineses usuários de bitcoin são pouco apegados aos ideias libertários tão presentes na proposta de Satoshi Nakamoto, o personagem anônimo que criou o bitcoin.

O que, de fato, cria demanda na China é o vício chinês por especulação e apostas, tanto em cassinos quanto  ativos financeiros. Traders chineses são habituados à volatilidade e as corretoras locais oferecem um amplo leque de opções de serviços de alavancagem e algotrading, que faz com que as corretoras chinesas negociem com frequência mais de 90% do volume global de transações diárias.  

Fatores macroeconômicos também servem de estímulo para demanda por bitcoin, especialmente a pressão inflacionária crescente no país, fruto da desvalorização sistemática do yuan, promovida há pelo menos um ano pelo banco central chinês.

Outro fator importante é a crescente demanda por recursos em moeda estrangeira por parte dos chineses mais abastados e por jovens profissionais de alta renda, que se utilizam do bitcoin para adquirir principalmente ativos relacionados com ouro, dólares e euros.

Em dias de alta volatilidade, é comum que usuários no mundo todo sofram com lentidões no processamento das transações devido à sobrecarga no blockchain, resultando em uma importante queda de performance dos serviços relacionados a bitcoin.

Atualmente, o blockchain dedicado ao bitcoin tem uma capacidade limitada e processa cerca de sete transações por segundo, capacidade que se mostra insuficiente nos períodos de maior demanda.

Formas de otimizar o protocolo e superar essa limitação na capacidade de processamento têm sido debatidas desde o ano passado e diversas discussões de bastidores buscam costurar um arranjo que atenda às necessidades do mercado, os interesses chineses e à comunidade de desenvolvedores do Bitcoin Core.

A discussão encontra-se polarizada. De um lado, estão aqueles que acreditam que não deveria haver qualquer mudança no código afim de aumentar a capacidade de processamento de transações. Do outro lado, estão desenvolvedores propondo diversas alternativas que aumentariam o limite  de transações.

Os interesses dos mineradores chineses são o grande mistério dessa discussão, o que gera uma série de rumores que fazem com que os especialistas do mercado atestem a governança do protocolo como o grande fator de risco para o futuro do bitcoin.

Ao concentrar a maior parte do poder de mineração, menos de 5 grupos chineses têm o poder de impor restrições que podem impedir qualquer mudança proposta pelos desenvolvedores.

No final de junho, uma reunião a portas fechadas entre os principais desenvolvedores do bitcoin e mineradores chineses foi o gatilho inicial para a mais recente queda no preço do bitcoin. Aumentaram os rumores sobre o progresso das soluções para aumento do bloco e a discussão de um eventual fork do blockchain. O saldo dessas conversas é que apesar dessa saudável aproximação, ainda persistem sérias divergências sobre como proceder o upgrade do protocolo afim de atender os interesses do mercado por escala e preservar a integridade da rede e rentabilidade dos mineradores.

A indústria de mineração de moedas digitais, especialmente bitcoin, ganhou escala muito rapidamente, graças ao investimento massivo de grupos privados chineses na aquisição e desenvolvimento de hardware dedicado exclusivamente para verificação das transações da blockchain.

Os dois maiores pools de mineração chinesas, F2Pool e Antpool, mineram juntas praticamente metade dos novos bitcoins gerados como recompensa do blockchain.

Esse quase monópolio é ainda mais impressionante, considerando que atualmente o blockchain tem uma capacidade de processamento 300 vezes superior a toda infraestrutura do Google.

Tal grau de concentração é um conflito sério em relação à natureza descentralizada do bitcoin, que vem evoluindo de sua origem como experimento cyberpunk para um ativo digital de alcance global, mas pelo menos por ora sob controle chinês.

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